ITABAIANA, A CIDADE DA PRATA. Há 347 anos. Quase.

Eles chegaram dispostos a enfrentar a lenda e torná-la realidade.
Foi uma expedição caríssima; cercada de todo o sigilo, mas ao mesmo tempo com todo o arsenal, tecnológico e de força de que se dispunha na época.

A prata já não tinha tanto valor, como há 140 anos atrás, quando Pizzaro reduziu o império Inca a cinzas, matando seu rei, escravizando seu povo, e se apossando de Cerro Rico, de onde até hoje se tira prata. E foi justo o inundar de prata, provocado pelos espanhóis que fizeram seu valor cair no mundo todo; mas ainda era a prata. Que corrompeu exércitos poderosos e radicalmente honestos como o espartano até Gysllipus, levou Peisitratus à glória numa Atenas mais que dividida e rebelde, financiou a primeira edição da Ilíada e a construção do primeiro Partenon; levantou e derrubou nações. Deixou Roma em vias de ser destruída pelo grande Anibal Barca; enfim, o ouro só viria ter importância estratégica no jogo de poder, na Batalha de Waterloo, quando o outro bravo, incorruptível e até invencível exercito francês foi arrendado, picotado pela corrupção do ouro de Londres, em 1815, levando o mítico general à humilhante derrota e seis anos depois à prematura morte.

E era essa prata que o jovem regente de Portugal tanto sonhava em finalmente descobrir em Itabaiana, e que lhe daria fôlego na enorme pressão em que Portugal se achava sanduichado entre o poderosíssimo império espanhol, e um novo perigo, que Portugal tinha ajudado a criar, na sua eterna briga para não engolido pela Espanha: a Inglaterra.

O Domo de Itabaiana compreende todo o círculo de Serras em forma de chama virada para a direita, entre os rios Sergipe, menor e seco, ao menos verão, e o Vaza-Barris, de curso três vezes maior, mas também originalmente seco. Está ele a apenas a distância média de 50 quilômetros do oceano, tornando-o de fácil acesso a qualquer aventureiro que o quiser alcançar, por mar, e depois por curta via terrestre. Em caso de confirmado a presença de prata, tinha que ser defendido com forças poderosas, talvez com dois fortes: um no embarque, como Cartagena, na Colômbia, por onde era escoada parte da prata – e outra no local da mina; a cidade de Itabaiana.

As amostras levadas à Lisboa pelo oficial Sebastão Lopes Grandio eram irrefutáveis: era prata. E dita de Itabaiana.
Mas D. Rodrigo de Castelo Branco, que contraiu malária, antes de chegar à Itabaiana perambulou pelos seus campos sem nada encontrar; valendo-se de seu general, Jorge Soares de Macedo e de principal auxiliar civil, o sergipano João Alves Coutinho, chegou até a serra da Itiuba e nada. Baldaram-se os ímpetos, inclusive de construir a cidade, murá-la, construir suas torres, como havia sido determinado a Jorge Soares de Macedo, tão logo encontrasse o primeiro veio do metal. Restaram uma paróquia pobre, criada no ano seguinte à chegada de D. Rodrigo aqui, em 11 de julho de 1674; uma povoação estagnada e muito esquecimento sobre o que de vera andou ocorrendo por aqui naqueles movimentados primeiros cem anos de Sergipe.
E a cidade não veio.

Por Almeida Bispo

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